TEXTO, TEXTUALIDADE E ENSINO

Na miscelânea das teorias, na miríade dos nomes e no caleidoscópio das ideias sobre ensino-aprendizagem de língua e literatura, há diversos caminhos possíveis. Este blog propõe esta discussão vista por diversos ângulos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE

Acabei de ler o livro acima, do sociólogo britânico Stuart Hall. Excelente leitura, gostaria de recomendar. O autor apresenta as noções de sujeito e identidade, apresentando um panorama histórico que vai desde o Renascimento, passando pelo sujeito cartesiano e chegando aos dias de hoje. O livro discute a gênese da noção de sujeito, sua elevação ao posto de algo unificado e sólido e desemboca na noção de fragmentação e contrariedade tão típicos de nossa contemporaneidade.
O sujeito pós-moderno, na verdade, são muitos. Resultado de profundas mudanças no pensamento ocorridas desde o fim do século XIX, a identidade hoje é algo líquido, fluídico, quase indefinível.
Foi o Marxismo, com a dialética; Foucault com o poder da disciplina; Freud e a descoberta de que o homem é guiado por forças subconscientes que nem conhece; Darwin e a destruição do confortável mito de Adão e Eva; Saussure e a percepção de que a língua não é um conjunto de idiossincrasias, mas que ela é social; o Feminismo e tudo o que ele trouxe de transformação para as sociedades e; finalmente, a globalização como a entendemos hoje - altamente sustentada na ideia de consumismo - nós consumimos o mundo.
Eu acrescentaria, ainda, as ideias de Kardec - segundo as quais o homem, além do corpo físico e de um componente psíquico, possui, também, uma alma que é imortal e que esteve em outros corpos antes. Pensamento bastante controverso para quem insiste na ideia de um sujeito cartesiano - cogito ergo sum - racional, pronto e sólido. Finalmente, penso que seria válido citar Bakhtin, o que Hall não faz. Principalmente para complementar o que postulou Saussure. É óbvio que a língua é social, entretanto, seu aspecto social só existe na abstração. A partir do momento que se aciona a língua numa situação real de comunicação, ela passa a representar o sujeito (eu em oposição ao outro, como sugere Bakhtin), passa a ser um ato de fala concreto, único e irrpetível. Essa discussão pode e deve ser levada adiante por nós.
A ontogênese e a filogênese parecem se complementar quando se fala da consolidação e fragmentação do sujeito. A identidade não é algo inato nem na história da humanidade nem na história da pessoa - ela é uma construção, uma elaboração que nem sempre se dá de forma consciente. Aliás, o autor sugere que se fale atualmente em 'identificação' em vez de identidade, uma vez que um mesmo sujeito pode carregar diversas identificações.
Tudo isso me faz lembrar Fernando Pessoa e sua fantástica fragmentação - foram tantos poetas, tantas pessoas habitando o Pessoa que talvez seja ele o maior simbolo de toda essa discussão.
Vale, agora, refletir sobre o impacto de tudo isso na escola, mais precisamente no ensino-aprendizagem de língua portuguesa.

Leandro Luz

6 comentários:

  1. De fato devemo-nos permitir algumas reflexões sobre a responsabilidade que temos desde já nas mãos, lembro que nos primeiros dias de aula um professor (não me lembro qual), nos deu exemplo de que, um médico quando erra acaba com a vida de um único indivíduo, já um professor numa paulada ferra com vários...
    Todos sabemos que, o ser humano se constitui de suas relações sociais, e o diálogo é uma necessidade existencial, que, portanto, não há verdades absolutas entre seus interlocutores e a escuta serve como ponte que nos leva ao ponto de vista do outro, que pode ou não transformar nossas opiniões.
    Com isso andei fuçando e achei um site interessante que destaca um artigo que se chama: Ação Dialógica do Docente Contemporâneo na Construção da Identidade Do Sujeito, que nos traz algumas contribuições.
    A primeira é expressa por Gutierrez quando diz que existem algumas possibilidades quando o pensamento se apóia numa relação dialógica: os interlocutores falam e escutam, levam em consideração todas as informações, conhecimentos e experiências do grupo em que esta interlocução está ocorrendo e este diálogo faz com que ocorra um maior envolvimento entre todas as pessoas e o assunto em pauta.
    A segunda é aquela que é apontada por Freire (2000: 92) quando registra que: o diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens os transformam, o diálogo impõem-se como o caminho pela qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial. E já que o diálogo é o encontro no qual a reflexão e a ação, inseparáveis daqueles que dialogam, orientam-se para o mundo que é preciso transformar e humanizar, este diálogo não pode reduzir-se a depositar idéias em outros. Não pode também converter-se num simples intercâmbio de idéias...
    http://www.vivenciapedagogica.com.br

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  2. De fato,Bakthin expica sobre os gêneros textuais e da cadeia de discursos em que a dicotomia se torna viva em cada falante.Por que privar as pessoas de viverem cada dia o seu discurso?

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. A partir de algumas pesquisas que andei fazendo, estou compreendendo que o homem pós-moderno está inserido em um mundo globalizado e convive cada vez mais com a destruição.
    De fato a identidade está fragmentada e acaba construindo diversas identificações de sujeitos sociais, para expor escolhas as quais são determinadas de valores importantes.
    O mundo vem sendo marcado por profundas mudanças e em meio a tantas transformações o homem pós-moderno está sendo alterado, moldado pelos acontecimentos. Ele precisou rever sua identidade, rever conceitos, rever sua posição no mundo, precisou se adaptar ao novo período.
    Se pararmos para analisar, é possível perceber que essas múltiplas identidades não passam de um ajuste a um mundo incerto, inseguro e de transformações constantes.
    Para sobreviver, o homem precisa construir formas de conviver e ser inserido em algum contexto.
    Isso também acaba dependendo da situação em que se encontra e de sua intenção daquele momento.
    Entretanto, é muito bem-vindo este convite de reflexão sobre o impacto de tudo isso na escola, mais precisamente no ensino-aprendizagem de língua portuguesa. Devemos nos manifestar, pois essas lançadas exigem de nós uma tentativa de resposta.
    O texto IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE me chamou atenção, especificamente quando cita que a identidade não é algo inato, ela é uma construção, uma elaboração que nem sempre se dá de forma consciente.
    A partir daí, acredito, que os professores devem refletir e observar as escolhas e as formulações que propõem aos seus alunos, pois esse processo constitui valores e descobertas de quem eles são e de como serão a partir daquilo que está sendo ensinado.

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  5. Jussara Alcantara Meireles9 de setembro de 2010 11:32

    Sobre a leitura que fiz dos primeiros capitulos de Bahktin, gostaria de compartilhar minhas anotações, sobre o que achei importante:
    Segundo o autor, Bakhtin é um estudioso da linguagem que está em alta e suas concepções são bastante utilizadas mas nem sempre compreendidas.
    Bakhtin (1895-1975) é um teórico da linguagem, que apesar das mais extremas privações materiais, de doenças crônicas, de perseguições, prisão e exílio, deixou uma produção intelectual de grande significado para as Ciências Humanas.
    Segundo Bakhtin, toda compreensão de um texto, falado ou escrito, implica uma responsividade e, conseqüentemente, um juízo de valor. O que isto quer dizer é que, ao se apropriar de um determinado texto, o leitor se posiciona em relação a ele, por meio de atitudes distintas: pode concordar ou não, pode adaptá-lo, pode acrescentar ou retirar informações, pode exaltá-lo. Ou seja, sua reação consiste numa resposta, o que significa uma compreensão responsiva ativa.
    O autor aponta para a complexidade do trabalho de Bakhtin devido ao fato do russo não ter elaborado uma teoria ou uma metodologia prontas, acabadas. Sua obra é marcada pela diversidade, pela heterogeneidade e por um certo “inacabamento”, um vir a ser.

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  6. Rosana Maria Flores Reis9 de setembro de 2010 12:57

    Gostei bastante da citação de Fernando Pessoa pelo professor Leandro e de um artigo de Silvana Mendonça que comenta sobre essa fragmentação do individuo e suas transformações através do tempo.
    Sendo o Centro essencial do EU a identidade de uma pessoa, e hoje essa identidade é formada na "interação" entre o eu e a sociedade, percebo que o professor exerce um poder enorme sobre os alunos, pois é através dele que conseguimos nos achar dentro dessa fragmentação.
    Cito a seguinte frase de Tomaz Tadeu da Silva e Garcia Lopes Louro(1992 p.13): "A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia".

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